Resenha retirada do site Leia Livro


A sombra do vento, Carlos Ruiz Zafón
10/10/2006

Não é sem razão que "A sombra do vento" já teve três excelentes resenhas aqui no £eia £ivro, duas das quais geraram boletins radiofônicos [vale ver BUSCA: A sombra do vento]. Mesmo que esta minha resenha não acrescente nada em relação àquelas antes referidas, permito-me, aqui e agora, registrar meu entusiasmo por este livro. Ele é simplesmente empolgante. Usualmente se deixa o elogio ao livro resenhado para o fim, mas meu entusiasmo é tanto, que recomendo na abertura.


Carlos Ruiz Rafón, um catalão nascido em Barcelona em 1964 - morando em Los Angeles, mas colaborador dos jornais espanhóis La Vanguardia e El País -, tornou-se uma das maiores revelações literárias, sendo premiado na Espanha e traduzido em pelo menos nove idiomas. Em "A sombra do vento", Ruiz Rafón nos leva a passear por Barcelona, uma das cidades mais charmosas do mundo.


A trama é instigante. A cada momento temos surpresas; revelações nos surpreendem. As tessituras são construídas com poesia e mistério; dois ingredientes aparentemente imiscíveis, mas que terminam se dissolvendo um no outro a cada página. Poderia pinçar miríade de exemplos, mas trago apenas um excerto para mostrar o saboroso da escrita: "Naquele domingo, as nuvens fugiram do céu e as ruas descansavam imersas em uma lagoa de neblina ardente que fazia suar os termômetros das paredes".


É quase impossível fazer uma síntese de "A sombra do vento". Os bibliófilos têm nessa obra um hino ao livro. Por um capricho dos deuses que cuidam de nossas agendas, escrevo esta resenha emocionado assistindo pelo "Portal da ABL" a posse do bibliófilo José Mindlin, na Cadeira nº 29 da ABL. Ele começa pedindo desculpas por não trazer um texto escrito, pois está com problemas de visão, mas promete aos presentes o texto ao final. Também faz reverente homenagem à sua esposa Gita Mindlin, recém falecida. Não posso deixar de recordar, quando há um ano ele assistiu uma fala minha acerca de diários como forma de colecionismo e deixou um autógrafo no meu diário, na data de 31 de agosto de 2005. Vale agora receber a aula do consagrado bibliófilo.


Feito esse parêntese volto à resenha. Dois personagens importantes são livreiros e trama parte do presente que Daniel, no dia de seus 11 anos, recebe de seu pai: uma visita a um fantasmagórico cemitério de livros esquecidos. Ele pode escolher um livro e a sua seleção recai em A sombra do vento de Julio Carax. A partir de então vamos acompanhar Daniel por 10 anos na busca do autor do livro. Nos envolvemos no lúgubre e sangrento período da Revolução Espanhola, balizados por dois personagens que são antípodas: Fermin e Fumero, um anjo e um ogro. Eles interferem, cada a sua maneira nos amores e nos ódios. Mais... só lendo o livro ou acessando as outras duas resenhas já comentadas.


O livro já nos encanta pela atraente capa. A edição da Objetiva é caprichada, mesmo que contenha pequenas resvaladas na tradução (por exemplo, cimiento, na acepção que está no texto, é alicerce e não cimento) e algumas não coerências quando na citação de cidades para onde se evadem personagens. Mas nada chega comprometer a gostosura do texto.


Talvez valesse nos perguntar porque um de repente um livro se atravessa em nos leituras não saindo de nossa cabeça, volta às nossas mãos. Leio usualmente mais de um livro em paralelo. Há diferentes decisões para a opção por um e outro: a atratividade, o tamanho. Não me aprazem livros muito grossos em pelo menos duas situações: em período de muitos afazeres, que não possa me dedicar por um tempo mais extenso a leitura e para levar em viagem. Em suma, livro muito extenso é bom para as férias. Então a conclusão lógica: A sombra do vento é um livro muito bom, pois depois que comecei não o conseguia largar. Outra razão de optarmos por um determinado livro: Uma capa sedutora - no caso deste; uma resenha recomendatória; a indicação por outro leitor - aqui foi essa a situação.


Este me foi indicado por um querido primo, Milton Seligman. Demonstrou tanta fruição pelo livro que o acompanhava, quando nos encontramos há um mês, que no dia seguinte, o encomendei a meu livreiro. Sou muito grato ao Milton por me revelar esse livro. E é impressionante o quanto quem me indica um bom livro termina por me acompanhar na leitura. Parece que volta e meia estou palpitando com aquele ou aquela que me recomendou um bom livro. Durante a leitura deste livro voltei muito ao bucólico cemitério judaico de Santa Maria, onde estive num domingo, no ocaso do inverno com Milton na descoberta da matzeiva de seu pai, o meu tio Salomão. Era aquele um cenário apropriado para comentarmos sobre A sombra do vento e também lhe dizer como fora apreciada a sua indicação.


Já que me fiz intimista pela primeira vez aqui. Vou expandir mais minhas emoções: esta é a minha qüinquagésima resenha aqui no £eia £ivro. Acredito que seja motivo de celebrações. Assim celebro a 50ª resenha, sonhando com momentos em que talvez um dia festeje a 100ª ou a 250ª, talvez a 1000ª - dentro de nossa simpatia pelos números redondos. Parece que se gosta menos dos números primos. Quem festeja o 17, o 53 ou o 71? Permito-me como encerramento dizer o quanto me deleita o hobby de fazer resenhas aqui e me tem gratificado intelectualmente.


Essa comemoração à minha qüinquagésima resenha me entusiasmou. Em separado, na sessão 'você é o autor', apresentarei "Uma rapsódia para uma resenha jubilar".


1 comentários:

Eu comprei este livro mas como já havia outros na fila, acabei nao lendo logo.
acho que essa resenha deveria estar no site www.skoob.com.br , assim pessoas como eu, podem saber que o livro é realmente bom.
Abs.

29 de novembro de 2008 às 08:47  

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